Café indígena de Rondônia ganha destaque no RuralCast
A força da agricultura indígena e o crescimento da produção de cafés especiais em Rondônia foram temas de mais uma edição do RuralCast, podcast do Grupo Amazun exibido no canal do YouTube Olá Rondônia.
Gravado durante a 2ª AGROTEC, em Porto Velho, o episódio foi apresentado por Adalto Costa e contou com a participação do agricultor Tawã Ambukalin Aruá, representante do Café Aruá.
Produzido na Aldeia São Luís, localizada na Terra Indígena Rio Branco, em Alta Floresta d’Oeste, o Café Aruá carrega no nome a identidade da família e do povo Aruá.
“O pessoal já falava ‘o café dos Aruá’. A gente acabou adotando esse nome, que é o nosso sobrenome e carrega a nossa identidade”, explicou Tawã.
Durante a entrevista, o agricultor apresentou a trajetória da família, falou sobre a transformação da produção convencional em café especial e destacou como o trabalho vem contribuindo para gerar renda, valorizar o território e ampliar a presença indígena em feiras e concursos.
Projeto iniciado em 2018 mudou a produção
A história do Café Aruá como produto especial começou em 2018, quando um projeto de melhoria da qualidade foi apresentado às famílias da Terra Indígena Rio Branco.
Segundo Tawã, seu pai, Valdir Aruá, foi um dos agricultores que decidiram participar da iniciativa. Outras duas famílias da comunidade também abraçaram o projeto e passaram a adotar novos cuidados na colheita e no processamento dos grãos.
“Em 2018, quando tudo começou, meu pai foi uma das pessoas que resolveu abraçar o projeto e seguir na preparação do café especial”, contou.
Antes disso, a família já possuía uma lavoura, mas não realizava o mesmo processo de seleção e beneficiamento que adota atualmente.
“A gente já trabalhava com café, mas não era um café especial. Não existia o cuidado que temos hoje com a qualidade”, afirmou Tawã.
A mudança exigiu aprendizado, acompanhamento técnico e participação de toda a família. Com o passar dos anos, o Café Aruá conquistou reconhecimento dentro e fora de Rondônia.
Nome representa identidade e pertencimento
O nome da marca não foi escolhido apenas como uma estratégia comercial. Ele representa a história, a origem e o pertencimento da família.
Ao levar o Café Aruá para feiras, concursos e eventos, Tawã também apresenta ao público parte da história da Terra Indígena Rio Branco e do trabalho realizado pelas famílias da comunidade.
“Para a gente, é de grande importância ter o café indígena no meio dos não indígenas, representar com o nosso produto, contar a nossa história e receber elogios”, declarou.
A participação nesses espaços ajuda a aproximar produtores e consumidores, abrir novos mercados e combater visões equivocadas sobre os povos indígenas.
Produção envolve toda a família
O Café Aruá é resultado de um trabalho familiar. Cada integrante participa de uma etapa da produção, do processamento ou da comercialização.
O pai de Tawã permanece diretamente ligado à lavoura e atua como mestre de torra. Outros integrantes ajudam na seleção, preparação, embalagem, apresentação e venda do café.
“É um trabalho todo em conjunto. Meu pai faz a torra, e a família participa da embalagem, do preparo e da apresentação do café”, explicou.
As irmãs de Tawã também passaram a buscar conhecimentos relacionados à degustação e à avaliação dos grãos. Esse aprendizado contribui para identificar características sensoriais e aperfeiçoar continuamente a qualidade do produto.
A esposa do agricultor, Natália Suruí, também participa do trabalho, especialmente no preparo realizado dentro da agroindústria e nas viagens para feiras e eventos.
Participação em eventos exige organização
Conciliar a atividade profissional, o trabalho na agricultura e a participação em eventos é um dos desafios enfrentados pela família.
Tawã explicou que, em algumas ocasiões, sua mãe e suas irmãs representam a marca. Em outras, ele e a esposa assumem essa responsabilidade.
“Às vezes vem minha mãe com a minha irmã. Quando elas não podem, venho eu e minha esposa. Assim, a gente vai dando um jeito de levar o café e contar a nossa história”, relatou.
Apesar das dificuldades, a presença em eventos como a 2ª AGROTEC é considerada essencial para divulgar o Café Aruá, realizar vendas e apresentar ao público o potencial da cafeicultura indígena.
Qualidade depende de cuidados no mesmo dia
A entrevista também detalhou o processo adotado pela família após a colheita. O café é selecionado, lavado e colocado no terreiro suspenso para secagem.
Segundo Tawã, uma das práticas utilizadas para preservar a qualidade consiste em colher, lavar e colocar os grãos para secar no mesmo dia. Isso reduz o risco de uma fermentação indesejada ainda na lavoura ou durante o armazenamento temporário.
“A gente colhe, lava e coloca no terreiro no mesmo dia. Esse é um dos fatores que ajudam a aumentar a qualidade do nosso café”, explicou.
Atualmente, grande parte desse processo é realizada manualmente. Depois da colheita, os grãos são colocados em caixas d’água para a lavagem e a separação. Em seguida, são levados ao terreiro suspenso.
A dedicação necessária para concluir o processamento no mesmo dia faz com que o trabalho avance pela noite.
“Teve vez de ficarmos até uma hora da madrugada lavando café. É cansativo, mas temos o compromisso de chegar a uma feira e apresentar um produto de qualidade”, afirmou.
Para Tawã, quem apresenta um café especial precisa conhecer sua origem e ter segurança sobre os cuidados adotados em cada etapa.
“Quando a gente apresenta o café, fala com a consciência limpa sobre a qualidade que está levando”, destacou.
Produção cresceu e exige mais estrutura
O aumento da produção trouxe novas oportunidades, mas também ampliou os desafios. Quando o projeto começou, a família produzia menos de 20 sacas, e nem todo o volume atendia aos critérios de qualidade especial.
Na produção mencionada durante a entrevista, Tawã informou ter colhido aproximadamente 60 sacas em sua lavoura. Já a área administrada por seu pai ultrapassou 100 sacas.
“Quando começamos, não chegávamos a 20 sacas. Neste ano, tirei aproximadamente 60, e meu pai produziu mais de 100 sacas”, relatou.
O crescimento aumentou a necessidade de mão de obra e estrutura. Para ampliar ainda mais a lavoura sem comprometer a qualidade, a família precisará investir em equipamentos para lavagem, seleção e processamento.
“A intenção é aumentar, mas, se isso afetar a qualidade, precisamos buscar maquinário ou continuar com o tamanho que temos”, ponderou.
A prioridade é preservar o padrão do produto. Por isso, qualquer expansão precisa acompanhar melhorias na estrutura da propriedade.
Qualidade deve acompanhar o crescimento
O relato de Tawã mostrou que produzir mais nem sempre significa obter melhores resultados. No mercado de cafés especiais, o cuidado com cada lote é determinante para a valorização do produto.
A colheita seletiva, a retirada de frutos verdes ou inadequados, a lavagem, a secagem e a torra influenciam diretamente o resultado final.
A família prefere manter uma produção controlada e reconhecida pela qualidade em vez de ampliar a quantidade sem possuir estrutura suficiente para o beneficiamento.
Essa decisão demonstra que o café especial exige planejamento, conhecimento e investimento, além do trabalho realizado no campo.
Café ajuda a enfrentar preconceitos
Um dos momentos mais marcantes da entrevista foi o relato sobre os preconceitos enfrentados pelos indígenas. Tawã contou que, após uma premiação, foi abordado por um homem que reconheceu ter uma visão equivocada sobre os povos indígenas.
“Ele olhou para mim e pediu desculpas. Disse que tinha uma visão diferente, que achava que os indígenas não trabalhavam e não tinham capacidade de fazer aquelas coisas”, recordou.
Para Tawã, o reconhecimento se transformou em motivação para continuar melhorando.
“Isso funciona como um combustível para que, a cada ano, a gente possa melhorar. Não para ser melhor que os parceiros, mas para ser melhor do que nós mesmos”, afirmou.
A história demonstra como a qualidade do produto e a presença indígena em espaços de destaque podem contribuir para romper estereótipos.
O Café Aruá não representa apenas uma mercadoria. Ele também comunica a capacidade produtiva, o conhecimento e a autonomia das comunidades indígenas.
Agricultura cria oportunidades para os jovens
Tawã também falou sobre a importância de os jovens indígenas encontrarem oportunidades dentro das próprias comunidades.
Depois de passar um período fora da terra indígena, ele retornou à aldeia e passou a se dedicar à agricultura e ao projeto familiar.
“Poder voltar para a minha aldeia e trabalhar com a agricultura nesse projeto foi muito gratificante”, declarou.
Segundo o agricultor, nem todos os jovens possuem condições financeiras para deixar suas comunidades e cursar uma faculdade. Nesse contexto, a agricultura pode se tornar uma importante fonte de trabalho e renda.
“A mensagem que levo aos jovens indígenas é que possamos valorizar mais a nossa terra por meio da agricultura e produzir com qualidade”, afirmou.
Para Tawã, investir em café, alimentos e outros produtos pode fortalecer a permanência das novas gerações nas aldeias e gerar desenvolvimento respeitando a cultura e o território.
Premiações despertaram interesse de outros produtores
Os resultados conquistados pelo Café Aruá em concursos ajudaram a atrair o interesse de outros agricultores da Terra Indígena Rio Branco.
A visibilidade também possibilitou a aproximação com projetos, compradores e empresas interessados na produção indígena de café.
Segundo Tawã, houve aumento no número de lotes comercializados por meio da organização dos produtores da comunidade.
“Do ano passado para este ano, aumentou bastante a quantidade de lotes enviados pela nossa cooperativa”, informou.
O agricultor acredita que a experiência da família pode inspirar outros povos e comunidades a investir não apenas no café, mas também em diferentes atividades agrícolas com potencial de geração de renda.
Parcerias contribuíram para a trajetória
Ao longo da entrevista, Tawã agradeceu às pessoas e instituições que contribuíram para a implantação e o desenvolvimento do projeto.
Ele destacou o apoio técnico recebido desde 2018, além da participação de órgãos de pesquisa, assistência técnica e representantes do poder público.
“Só tenho a agradecer pelas pessoas que foram colocadas em nossa caminhada. Essas parcerias foram muito importantes para chegarmos até aqui”, declarou.
A trajetória demonstra que o fortalecimento da produção indígena depende da dedicação dos agricultores, mas também do acesso à assistência técnica, aos equipamentos, aos mercados e às políticas de incentivo.
Um café que carrega história
Ao encerrar a entrevista, Adalto Costa destacou que cada embalagem do Café Aruá reúne trabalho, tradição, identidade e a participação de diferentes pessoas.
O produto representa uma família que decidiu investir em qualidade, permanecer ligada à comunidade e transformar o café em uma ferramenta de geração de renda e valorização cultural.
Mais do que uma bebida, o Café Aruá apresenta ao consumidor a história da Aldeia São Luís e da Terra Indígena Rio Branco.
A participação de Tawã Ambukalin Aruá no RuralCast mostrou que a cafeicultura indígena de Rondônia possui capacidade para conquistar mercados, receber reconhecimento e inspirar novas gerações.
Quem deseja conhecer o trabalho e acompanhar as novidades pode acessar o Instagram @cafearua.
Assista ao episódio completo
Acompanhe a entrevista com Tawã Ambukalin Aruá, do Café Aruá, no RuralCast, apresentado por Adalto Costa durante a 2ª AGROTEC, em Porto Velho.
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