A Febre do Nilo Ocidental, uma enfermidade conhecida na África há cerca de 90 anos, não é comum no Brasil. Contudo, apesar de registros de casos confirmados e uma morte associada à doença, o médico infectologista Álvaro Furtado da Costa, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, enfatiza que a grande maioria das infecções é leve, com menos de 1% progredindo para quadros graves.
O especialista tranquiliza a população, afirmando que "não há motivo para preocupação". Ele ressalta a importância de mapear os casos e monitorar aves, especialmente em locais com mortalidade incomum desses animais. Costa aguarda os resultados de estudos, mas esclarece que o contato com aves não garante a transmissão da doença.
A Febre do Nilo Ocidental é uma infecção viral aguda causada por um arbovírus, pertencente ao mesmo grupo de vírus responsáveis por doenças como dengue, zika, chikungunya e febre amarela. A transmissão ocorre principalmente através da picada de mosquitos do gênero Culex, popularmente conhecidos como pernilongos ou muriçocas, que contraem o vírus ao se alimentarem de aves infectadas.
Estima-se que cerca de 80% das pessoas infectadas não desenvolvam sintomas. Nos 20% restantes, as manifestações clínicas são, em sua maioria, brandas. Os sintomas que podem surgir incluem:
- febre e mal-estar;
- falta de apetite;
- náuseas e vômitos;
- dor de cabeça;
- dor muscular;
- dor nos olhos;
- manchas na pele;
- aumento dos gânglios linfáticos;
- confusão mental;
- rebaixamento do nível de consciência;
- tremores ou convulsões.
Contágio e Tratamento
O infectologista Álvaro Furtado da Costa detalha o ciclo de transmissão: "Os mosquitos picam as aves infectadas – os reservatórios do vírus – e, picando o ser humano, podem transmitir a doença. Os sintomas são muito parecidos com os de arboviroses como dengue, zika, que são vírus ‘primos’".
Os quadros clínicos da Febre do Nilo Ocidental podem variar de uma febre passageira a formas mais severas, que podem evoluir para encefalite, meningite ou outras complicações neurológicas. Nesses casos, é fundamental buscar avaliação médica imediata e, se necessário, internação hospitalar.
Em situações graves, a hospitalização e o atendimento em unidade de terapia intensiva podem ser indispensáveis. O tratamento foca no manejo dos sintomas e pode incluir reposição de líquidos intravenosos, suporte respiratório e outras medidas para prevenir e tratar complicações.
O diagnóstico é realizado por meio de avaliação clínica e exames laboratoriais em pacientes que apresentam sintomas compatíveis e histórico de exposição a áreas onde o mosquito vetor está presente. Atualmente, não há vacina nem tratamento antiviral específico para a Febre do Nilo Ocidental em humanos. O controle da doença é sintomático, com repouso, hidratação e acompanhamento médico individualizado.
Costa acrescenta que "ainda não há estudo idealizando uma vacina para essa doença, que tem um número muito pequeno de casos pelo mundo, totalmente diferente de outras arboviroses com um número bem maior de casos como zika e dengue".
Casos Registrados
O Centro de Vigilância Epidemiológica Prof. Alexandre Vranjac (CVE-SP), da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP), confirmou dois casos no estado: uma mulher de 34 anos, residente em Ribeirão Preto, e uma adolescente de 18 anos, de São José do Rio Preto. A mulher de Ribeirão Preto, que relatou ter viajado recentemente para a região amazônica, já está curada. A adolescente de São José do Rio Preto permanece internada sob cuidados médicos. Este é o primeiro registro de casos humanos da doença no estado de São Paulo.
Tatiana Lang D’Agostini, diretora do CVE-SP, informou que "as equipes municipais e estaduais seguem atuando na investigação dos casos para identificar o local provável de infecção e orientar as medidas de prevenção".
Além disso, o Ministério da Saúde confirmou dois casos em Santa Catarina, um dos quais resultou em óbito, e há um caso provável no Piauí. Diante desses registros, a pasta mantém a vigilância epidemiológica e laboratorial para identificar novas ocorrências e possíveis áreas de transmissão.