Um levantamento recente do Observatório Sebrae Startups identificou 3.664 startups brasileiras que atuam no modelo business-to-government (B2G), fornecendo soluções para o setor público. O estudo revela que as regiões Sudeste e Nordeste concentram a maior parte dessas empresas, com 32,2% e 31,9% respectivamente. Além disso, o desenvolvimento de software se destaca como o principal produto, sendo oferecido por quase metade (49,1%) das GovTechs.
Baseado em dados de startups registradas na Plataforma Sebrae Startups, o mapeamento detalha o perfil do ecossistema de GovTechs, empresas de tecnologia focadas em soluções para a gestão pública. Os resultados indicam que o setor ainda está predominantemente em fases iniciais de desenvolvimento, com 42,2% das startups em validação e apenas 2,4% já em escala.
Paulo Renato Cabral, Gerente de Inovação do Sebrae Nacional, destaca o potencial desse mercado. Ele afirma que o setor público brasileiro movimenta bilhões em compras anuais e possui uma demanda crescente por tecnologia. Cabral ressalta a importância de as GovTechs compreenderem as compras públicas, estruturarem processos comerciais e garantirem capacidade de entrega para aproveitar esse mercado de grande escala.
Perfil do Ecossistema: Validação e Software em Destaque
A análise da maturidade das 3.664 GovTechs mapeadas aponta para um ecossistema em desenvolvimento intermediário. A fase de validação, onde o produto é testado no mercado real, abrange 42,2% das empresas. Em seguida, vêm as fases de tração (24,9%), caracterizada pelo crescimento de receita e clientes, e ideação (21,7%), o estágio inicial. Apenas 9,3% das GovTechs estão em crescimento estruturado e 2,4% alcançaram escala.
Em relação ao tipo de solução, o software domina, com 49,1% das GovTechs focadas em plataformas digitais. Serviços ocupam a segunda posição (31,9%), seguidos por produtos físicos (10,2%), conteúdo (3,47%), hardware (3,3%) e outras categorias (2,3%). O modelo de negócio de assinatura recorrente (SaaS) é o mais comum, adotado por 46,7% das startups, enquanto vendas diretas (22,1%), licenciamento (9,2%) e modelos transacionais (7,7%) também são relevantes. Outros formatos totalizam 14,7%.
A estrutura societária dessas empresas é majoritariamente enxuta: 49,7% das GovTechs possuem entre dois e três sócios. Fundadores individuais correspondem a 28,1% do ecossistema, e 14,5% das empresas contam com quatro a seis sócios. Apenas 1,6% operam com mais de seis sócios.
Segmentos e Concentração Geográfica
As GovTechs brasileiras focam suas soluções em três áreas principais: tecnologia da informação (15,7%), saúde e bem-estar (14,1%) e educação (13,8%). Em termos geográficos, o Sudeste lidera com 1.180 CNPJs (32,2%), seguido de perto pelo Nordeste, que representa 1.168 CNPJs (31,9%). A região Sul abriga 656 empresas (17,9%), o Centro-Oeste 369 (10,1%) e o Norte 283 (7,7%).
No ranking municipal, São Paulo se destaca com 319 CNPJs de GovTechs. Recife ocupa a segunda posição com 148 empresas, seguido por Florianópolis (119), Rio de Janeiro (102) e Brasília (100). Fortaleza e Teresina registram um empate com 96 CNPJs cada. Completam a lista das dez principais cidades: Belo Horizonte (84), Porto Alegre (79) e Natal (75).
Em nível estadual, São Paulo concentra 18,7% do total nacional, com 685 CNPJs. Pernambuco vem em segundo lugar com 7,5% (276 CNPJs), seguido por Santa Catarina com 7,4% (271 CNPJs). Minas Gerais e Rio Grande do Sul empatam com 6,3% cada (231 e 229 CNPJs, respectivamente). O Rio de Janeiro possui 4,6% (170 CNPJs) e o Paraná, 4,3% (156 CNPJs).
Empresas com Contratos Públicos de Inovação (CPSI)
Uma análise secundária, realizada em parceria entre o Observatório Sebrae Startups e o Observatório do CPSI (Contrato Público de Soluções Inovadoras), do Núcleo de Inovação e Propriedade Intelectual da Procuradoria Geral do Estado de São Paulo (NIPI/PGE-SP), detalha o perfil das empresas já engajadas nesse modelo de aquisição. O estudo identificou 59 órgãos públicos com editais de CPSI, dos quais 44 firmaram contratos com 248 fornecedores, somando 223 CNPJs únicos.
Das 223 empresas analisadas nesta fase, 80 (35,9%) estão ativamente cadastradas na plataforma Sebrae Startups. A distribuição por porte financeiro revela uma predominância de empresas de maior faturamento, com 57% superando R$ 4,8 milhões anuais. Microempresas (com faturamento entre R$ 81 mil e R$ 360 mil) correspondem a 29,1%, e empresas de pequeno porte (R$ 360 mil a R$ 4,8 milhões) representam 13,9%.
No que tange ao produto principal, o software mantém uma liderança ainda mais expressiva neste segmento: 66,7% das empresas com contratos CPSI (54 companhias) desenvolvem plataformas digitais. Serviços vêm em segundo lugar com 24,7% (20 empresas), seguidos por hardware (6,2% ou 5 empresas) e produtos físicos (2,5% ou 2 empresas).
A análise da longevidade das 223 empresas envolvidas em contratos públicos de inovação revela um perfil distinto do ecossistema geral. Empresas com mais de 10 anos de existência representam 39% do total (87), enquanto aquelas com 5 a 10 anos somam 37,2% (83). Negócios com 2 a 5 anos de atuação correspondem a 17,5% (39), e startups com menos de 2 anos representam apenas 6,3% (14).
A idade média dessas empresas é de 11,7 anos, um valor consideravelmente maior que a média das GovTechs em fase de validação no ecossistema geral. A média de sócios por empresa é de 3,4, totalizando 752 sócios nesse segmento. Cada startup, em média, atende a nove segmentos distintos.
No contexto das empresas com contratos CPSI, São Paulo lidera com 63 sedes, seguido pelo Rio de Janeiro (50) e Minas Gerais (22). Pernambuco (17), Distrito Federal (6), Espírito Santo (5), Bahia (4) e Ceará (4) também se destacam. Alagoas possui 3 empresas, Paraíba 2, e há 2 empresas com sede no exterior. Amazonas, Amapá e Maranhão contam com uma empresa cada.
Metodologia do Levantamento
A primeira etapa do estudo utilizou dados do Observatório Sebrae Startups, abrangendo 3.664 empresas que se identificaram como atuantes no modelo B2G (business-to-government) ou com o governo como cliente na Plataforma Sebrae Startups.
A segunda parte da pesquisa é fruto de uma colaboração entre o Observatório do CPSI (Contrato Público de Soluções Inovadoras) e o Observatório Sebrae Startups. Seu objetivo foi delinear o perfil das empresas que já participaram desse tipo de aquisição. Foram identificados 59 órgãos públicos com editais de CPSI, dos quais 44 firmaram contratos com 248 fornecedores e 233 CNPJs distintos, com 223 empresas analisadas detalhadamente.
Paulo Renato Cabral enfatiza que o Contrato Público de Soluções Inovadoras representa uma mudança estrutural na contratação de tecnologia pelo Estado. Em vez de adquirir soluções prontas, o poder público agora testa e desenvolve soluções personalizadas para desafios específicos. Ele conclui que, embora o modelo esteja em consolidação, possui grande potencial para democratizar o acesso de startups ao mercado público.