Condições favoráveis para produzir forragem
O clima quente, a disponibilidade de umidade durante boa parte do ano e a variedade de plantas forrageiras adaptadas colocam Rondônia em uma posição privilegiada para ampliar a produtividade da pecuária.
A avaliação foi apresentada pelo médico-veterinário Daniel Schmitt, mestre e doutor em Ciência Animal, durante participação no RuralCast, podcast do Grupo Amazun, transmitido pelo canal Olá Rondônia.
Entrevistado pelo apresentador Lenilson Guedes, durante a 2ª AGROTEC, em Porto Velho, o pesquisador destacou que encontrou no estado uma realidade muito diferente daquela observada na Região Sul.
“Aqui nós temos um potencial de produção de pasto e de forrageiras que não temos no Sul. Rondônia tem calor durante o ano inteiro e umidade durante boa parte do ano”, afirmou.
Essas condições favorecem o crescimento das plantas e permitem produzir grandes volumes de alimento para bovinos de corte e de leite. Entretanto, o potencial somente se transforma em produtividade quando o produtor realiza o manejo correto.
Produção pode ultrapassar 20 toneladas por hectare
Para demonstrar a capacidade produtiva das pastagens rondonienses, Daniel comparou os resultados que podem ser alcançados em Rondônia com os registrados em áreas de Santa Catarina.
Segundo ele, em regiões catarinenses de bom potencial, a produção anual costuma variar entre 12 e 15 toneladas de matéria seca por hectare. Em Rondônia, esse volume pode chegar a 20 ou 25 toneladas.
“Em Santa Catarina, rotineiramente conseguimos produzir de 12 a 15 toneladas de matéria seca por hectare por ano. Quando chegamos a Rondônia, é fácil atingir entre 20 e 25 toneladas. É uma produção pelo menos 50% maior”, comparou.
A matéria seca representa a parte da planta que permanece depois da retirada da água. É nela que estão concentrados nutrientes como proteínas, fibras, minerais e carboidratos utilizados pelo animal.
“Temos um potencial incrível para a produção forrageira no estado”, ressaltou.
Capacidade para manter mais animais por área
A elevada produção de pasto permite ampliar a capacidade de suporte das propriedades, ou seja, aumentar o número de animais mantidos em uma determinada área.
Rondônia também dispõe de diferentes cultivares desenvolvidas ou avaliadas pela pesquisa agropecuária. Essas plantas podem ser utilizadas conforme o tipo de solo, clima, finalidade produtiva e condições de cada fazenda.
“Nós contamos com um portfólio de plantas forrageiras muito produtivas e nutritivas. Elas permitem trabalhar com maior capacidade de suporte, com mais animais por área, desde que o produtor saiba o que está fazendo”, explicou Daniel.
A ressalva feita pelo pesquisador é importante: colocar mais animais no mesmo espaço sem elevar a oferta e a qualidade da forragem pode causar superpastejo, degradação e redução do desempenho do rebanho.
Pastagem deve ser tratada como lavoura
Uma das principais mensagens apresentadas durante o RuralCast foi a necessidade de mudar a forma como o produtor enxerga o pasto.
Daniel defendeu que a pastagem seja conduzida com o mesmo planejamento destinado às culturas agrícolas. Isso envolve análise e correção do solo, adubação, escolha da cultivar, definição do momento de entrada e saída dos animais e acompanhamento da produção.
“O produtor de ponta entendeu que o pasto é uma lavoura”, afirmou.
Segundo o pesquisador, o bovino não produz pasto. Ele transforma a forragem cultivada pelo pecuarista em carne ou leite.
“Eu produzo o pasto, que é a minha lavoura, e essa lavoura eu ofereço ao gado. O gado é alimentado pela lavoura que o produtor cultiva”, explicou.
Assim como soja e milho possuem exigências nutricionais e momentos adequados para colheita, a pastagem também precisa de nutrientes e deve ser utilizada no estágio correto.
“O pasto tem ponto de colheita e precisa de nitrogênio, fósforo e potássio. Ele também é uma cultura agrícola”, acrescentou.
Manejo evita degradação
Daniel identificou áreas com estágio médio ou avançado de degradação em algumas regiões de Rondônia. O problema reduz a quantidade de alimento disponível e prejudica diretamente a produção de carne e leite.
“Um problema sério que temos é o estado médio a avançado de degradação das pastagens em algumas regiões”, alertou.
A degradação pode ser causada por diversos fatores, incluindo ausência de adubação, uso de plantas inadequadas, excesso de animais, falhas no sistema rotacionado, pragas, alagamento e esgotamento dos nutrientes do solo.
“A degradação das pastagens é multifatorial”, ressaltou.
Segundo o pesquisador, quando a planta retira nutrientes do solo continuamente e esses elementos não são repostos, o pasto começa a perder vigor.
“O pasto extrai os nutrientes no primeiro, segundo, terceiro e quarto anos. Quando o solo fica sem nutrientes para fornecer, a planta começa a degradar”, explicou.
Escolha da forrageira deve considerar o ambiente
Nem toda espécie de capim é adequada para qualquer propriedade. Áreas sujeitas a alagamento, por exemplo, precisam de plantas tolerantes ao excesso de umidade. Regiões com incidência de cigarrinhas exigem materiais resistentes ao inseto.
“Se o produtor tem uma área com lençol freático alto ou de alagamento fácil, não adianta colocar uma planta que vai morrer”, exemplificou.
O mesmo princípio vale para locais com histórico de pragas.
“Se a área é suscetível ao aparecimento de cigarrinha e ele utiliza uma braquiária também suscetível, pode perder e degradar a pastagem”, acrescentou.
A recomendação é buscar assistência técnica antes de implantar ou reformar uma área, reduzindo o risco de investir em uma cultivar inadequada.
Rotação precisa ser bem planejada
O sistema de pastejo rotacionado pode aumentar a eficiência no uso da forragem, mas não deve ser aplicado sem planejamento.
O produtor precisa definir o tamanho dos piquetes, o período de ocupação, o intervalo de descanso e a quantidade de animais. Essas decisões variam conforme a espécie forrageira, as condições climáticas e a velocidade de crescimento.
Daniel afirmou que ainda existe necessidade de ampliar a capacitação sobre manejo.
“A gente precisa qualificar melhor o produtor sobre como manejar o pasto e como fazer um sistema rotacionado bem executado”, declarou.
A entrada precoce dos animais pode impedir que a planta acumule folhas suficientes. A permanência excessiva no piquete pode reduzir a área foliar, comprometer a rebrotação e desgastar a pastagem.
Frequência e intensidade da desfolha
A trajetória acadêmica de Daniel Schmitt inclui estudos sobre forragicultura, ecofisiologia, comportamento dos animais em pastejo e os efeitos da desfolha nas plantas.
Entre os temas pesquisados estão a frequência e a severidade da desfolha do capim-pioneiro (Pennisetum purpureum) por bovinos leiteiros, além do consumo de forragem em pastos de capim-quicuiu sob lotação intermitente.
A desfolha acontece quando o animal remove folhas e caules durante o pastejo. Se for muito frequente ou intensa, a planta perde capacidade de captar luz e realizar fotossíntese, atrasando sua recuperação.
Quando o intervalo é excessivamente longo, a forragem pode acumular material envelhecido, mais fibroso e de menor valor nutritivo. Por isso, o manejo deve equilibrar produção, qualidade e capacidade de recuperação da planta.
Valor nutritivo interfere no desempenho
Não basta produzir uma grande quantidade de massa vegetal. Para gerar resultados econômicos, a forragem precisa oferecer qualidade nutricional e ser consumida pelos animais.
O valor nutritivo é influenciado pela espécie, idade da planta, fertilidade do solo, época do ano e manejo adotado. Pastos muito maduros normalmente apresentam maior concentração de fibras e menor digestibilidade.
O comportamento ingestivo também interfere no desempenho. A estrutura do pasto influencia o tamanho dos bocados, o tempo gasto para colher alimento e a quantidade total ingerida.
Esses fatores ajudam a determinar quanto leite ou carne o animal poderá produzir a partir da área utilizada.
Pecuária leiteira intensiva pode continuar no pasto
Na avaliação de Daniel, aumentar a intensidade da produção leiteira em Rondônia não significa necessariamente confinar os animais.
A elevada capacidade de produção de forragem permite desenvolver sistemas intensivos baseados no pasto, desde que haja manejo, suplementação e conforto.
“Uma pecuária leiteira intensiva para Rondônia não significa necessariamente colocar os animais dentro de um galpão. Como temos capacidade de produzir muita forragem, podemos mantê-los no pasto, desde que saibamos trabalhar bem esse pasto”, explicou.
Dependendo da exigência dos animais e da qualidade da forragem, pode ser necessário complementar a alimentação com silagem de milho, concentrados e suplementos minerais.
“Também precisamos entender que esses animais deverão receber suplementação com silagem e ração”, acrescentou.
Sombra e água fresca são essenciais
O conforto térmico foi outro ponto enfatizado. O calor intenso pode reduzir o consumo de alimento e aumentar o gasto de energia dos bovinos para manter a temperatura corporal.
“A gente precisa trazer sombra e água fresca para os animais”, afirmou Daniel.
Durante a entrevista, o pesquisador citou uma sensação térmica de aproximadamente 43 graus em Porto Velho. Algumas raças leiteiras começam a enfrentar desconforto em temperaturas muito inferiores.
Esse cenário reforça a importância da arborização das pastagens, dos sistemas silvipastoris, da disponibilidade de água e da escolha de animais adaptados.
Estresse térmico reduz produção
Quando está sob estresse térmico, o animal altera o comportamento. Ele pode reduzir o tempo de pastejo, buscar sombra, permanecer mais tempo próximo da água e diminuir o consumo de forragem.
A energia que seria direcionada para produção passa a ser utilizada para dissipar calor e manter o equilíbrio corporal.
“Precisamos entender de uma vez por todas que animal sob estresse é animal que produz menos”, alertou.
Daniel defendeu que o bem-estar seja tratado como uma responsabilidade e também como um fator econômico.
“O animal não é nosso escravo; ele é nosso parceiro”, declarou.
Ao oferecer melhores condições ambientais, o produtor evita que o bovino desperdice energia tentando controlar a temperatura.
“A energia que ele gastaria para dissipar calor pode ser transformada em carne e leite. E carne e leite significam dinheiro no bolso do produtor”, explicou.
Sistemas silvipastoris podem contribuir
A integração de árvores com as pastagens é uma das alternativas para melhorar o ambiente oferecido ao rebanho.
Daniel citou pesquisas realizadas pela Embrapa Rondônia com arborização e sistemas silvipastoris. As árvores fornecem sombra, podem melhorar o microclima e ainda contribuir para a diversificação da propriedade.
Segundo ele, essas tecnologias se tornaram ainda mais relevantes diante do aumento da frequência de eventos climáticos extremos.
Os sistemas, no entanto, precisam ser planejados para evitar excesso de sombreamento, competição por água e dificuldades no manejo.
Recuperar pastagens aumenta oferta de alimento
Para Daniel, a recuperação das áreas degradadas é um dos primeiros passos para elevar a produtividade da pecuária leiteira.
“Se recuperarmos a pastagem, teremos mais comida para a vaca, que poderá produzir mais leite. Isso já é um bom começo”, afirmou.
A recuperação pode envolver diagnóstico do solo, correção da acidez, adubação, controle de plantas invasoras, escolha de novas cultivares e ajuste da lotação.
Em alguns casos, também é necessário reorganizar piquetes, bebedouros, corredores e áreas de sombra.
Queimadas não explicam sozinhas a degradação
Durante a entrevista, Daniel explicou que a degradação não pode ser atribuída apenas às queimadas. Segundo ele, grande parte dos produtores não utiliza o fogo de maneira rotineira, embora ocorram incêndios acidentais durante a estiagem.
“No período da seca, a pastagem vira um barril de pólvora. Uma fagulha pode ser suficiente”, observou.
Muitos pecuaristas mantêm pastos diferidos para utilizar na seca. Quando essas áreas queimam acidentalmente, o produtor perde uma reserva importante de alimento.
Embora o fogo possa agravar o problema, Daniel ressaltou que falhas de manejo, ausência de reposição de nutrientes, pragas e escolha inadequada das forrageiras também precisam ser consideradas.
Cadeia leiteira precisa de maior organização
Além das pastagens, o pesquisador analisou a situação da produção de leite em Rondônia. Ele ponderou que está há poucos meses no estado e ainda estuda a estrutura da atividade, mas identificou a necessidade de maior integração entre os participantes.
“Temos boa vontade, mas a cadeia leiteira ainda precisa se estruturar melhor”, avaliou.
Para ele, produtores, laticínios, cooperativas, instituições de pesquisa e governo precisam trabalhar com objetivos comuns.
“Laticínios e produtores precisam falar a mesma língua e andar no mesmo sentido, em uma relação na qual um ajude o outro”, defendeu.
Daniel destacou que negócios sustentáveis devem gerar resultados para todos os envolvidos.
“Os bons negócios seguem a política do ganha-ganha. Quando um ganha e o outro perde, quem está perdendo acaba sucumbindo”, afirmou.
Redução no número de produtores preocupa
Conforme os números citados por Daniel durante a entrevista, Rondônia teria perdido aproximadamente metade dos produtores de leite em uma década, passando de cerca de 40 mil para 20 mil.
“Nos últimos dez anos, perdemos metade dos produtores de leite no estado”, alertou.
A continuidade desse movimento pode reduzir a produção, enfraquecer a economia rural e aumentar a dependência de leite vindo de outras regiões.
“Rondônia já foi uma bacia leiteira de importância nacional. Se essa tendência continuar, corremos o risco de perder ainda mais espaço”, afirmou.
Produção de leite e segurança alimentar
Daniel também relacionou a redução da atividade à segurança alimentar. Caso a produção local não seja suficiente, o estado terá que ampliar a compra de leite de outras regiões, aumentando a exposição aos custos de transporte e às oscilações do mercado.
“Se a produção de leite parasse em Rondônia, o produto teria que vir de outro estado ou de outro país. A que preço esse leite chegaria?”, questionou.
O aumento do preço atinge principalmente as famílias de menor renda e as crianças, para quem o leite possui importância nutricional.
“Nós temos que garantir o leite das crianças, não no sentido figurado, mas no sentido literal”, enfatizou.
Pesquisa voltada às condições de Rondônia
Daniel afirmou que a pesquisa agropecuária está trabalhando para compreender os sistemas mais adequados à realidade local.
A proposta envolve plantas forrageiras adaptadas, recuperação de pastagens, sistemas produtivos para bovinocultura de corte e leite e estratégias de conforto térmico.
“A pergunta que estamos fazendo é: como montar um sistema intensivo de produção de leite adequado a Rondônia?”, explicou.
O objetivo é produzir orientações técnicas que possam ser aplicadas nas propriedades, respeitando as diferenças entre regiões, solos e perfis de produtores.
Formação acadêmica e experiência profissional
Daniel Schmitt é graduado em Medicina Veterinária pela Universidade do Estado de Santa Catarina, onde concluiu o curso em 2008. Também possui mestrado, concluído em 2012, e doutorado em Ciência Animal, finalizado em 2016 pela mesma instituição.
Sua trajetória inclui experiências acadêmicas no Uruguai e na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, além de atividades de pós-doutorado.
Como professor, atuou em disciplinas ligadas a forragicultura, nutrição animal, bovinocultura leiteira, bovinocultura de corte, comportamento e bem-estar animal.
Também desenvolveu atividades de formação continuada, palestras para produtores, treinamentos de equipes e capacitações no campo.
Conhecimento precisa chegar às propriedades
Ao longo da entrevista, Daniel reforçou que Rondônia já possui condições naturais e materiais forrageiros capazes de sustentar uma pecuária mais produtiva. O próximo passo é ampliar o acesso às informações e transformar os resultados científicos em práticas aplicáveis.
A melhoria das pastagens depende de assistência técnica, planejamento e mudança de visão. O pasto precisa ser cultivado, monitorado e utilizado no momento correto.
O conforto dos animais também deve ocupar posição central, pois interfere diretamente no consumo de forragem, na produção de carne e leite e nos resultados econômicos.
Com manejo, recuperação das áreas degradadas e maior organização da cadeia leiteira, Rondônia poderá aproveitar melhor seu potencial e produzir mais sem depender exclusivamente da abertura de novas áreas.
“O produtor precisa entender que o pasto é uma lavoura. Quando ele melhora essa lavoura, produz mais alimento e cria as condições para o animal produzir melhor”, concluiu Daniel Schmitt.
Assista à entrevista completa no RuralCast, pelo canal Olá Rondônia no YouTube:
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