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ASSISTA: Sistemas integrados ajudam pecuária de Rondônia a enfrentar calor extremo e mudanças climáticas

Pesquisadora Ana Karina Salman destacou arborização das pastagens, conforto térmico dos bovinos e tecnologias para tornar a produção mais sustentável

Redação Olá Rondônia / RuralCast
Foto: Olá Rondônia / RuralCast

Livro apresenta tecnologias para a pecuária

O aumento das temperaturas e a ocorrência de eventos climáticos extremos já interferem na rotina das propriedades rurais e no desempenho dos rebanhos. Para ajudar produtores, estudantes e técnicos a enfrentar essa nova realidade, pesquisadores reuniram informações e tecnologias em uma publicação lançada durante a 2ª AGROTEC, em Porto Velho.

O livro “Sistemas Integrados e Bem-Estar Animal no Contexto das Mudanças Climáticas” foi apresentado pela pesquisadora e zootecnista Ana Karina Salman, da Embrapa Rondônia, durante participação no RuralCast, podcast do Grupo Amazun, transmitido pelo canal Olá Rondônia.

Entrevistada pelo apresentador Inácio Rocha, Ana Karina explicou que a obra aborda alternativas para manter a pecuária produtiva diante do calor e das mudanças no regime de chuvas.

“O livro traz tecnologias para conseguirmos manter os sistemas pecuários viáveis dentro do contexto das mudanças climáticas, principalmente com opções para mitigar o estresse térmico em bovinos”, afirmou.

Publicação está disponível gratuitamente

Ana Karina é uma das organizadoras da obra, que reuniu pesquisadores da Embrapa e de universidades brasileiras.

O livro contou com participação de profissionais da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Universidade Federal do Rio Grande do Norte e outras instituições.

Segundo a pesquisadora, o conteúdo completo pode ser acessado gratuitamente pela internet.

“O PDF está disponível gratuitamente no site da Embrapa. Basta pesquisar o título do livro para encontrar o material”, informou.

Alguns exemplares impressos também foram distribuídos no estande da Embrapa durante a AGROTEC, mas em quantidade limitada.

A disponibilidade gratuita amplia o acesso dos produtores às orientações sobre bem-estar animal, conforto térmico, sistemas integrados e adaptação às mudanças climáticas.

Pesquisas realizadas em diferentes regiões

A publicação reúne resultados de pesquisas conduzidas por profissionais que trabalham com conforto térmico de bovinos e integração lavoura-pecuária-floresta.

“Nós reunimos nossos dados e convidamos pesquisadores de universidades e da própria Embrapa para acrescentar informações sobre conforto térmico, bem-estar e metodologias de avaliação”, explicou Ana Karina.

O material também demonstra como os sistemas integrados podem contribuir para reduzir os impactos do aumento das temperaturas.

“Mostramos a importância da integração lavoura-pecuária-floresta e o quanto ela pode contribuir dentro desse contexto de mudanças climáticas”, acrescentou.

Calor afeta diretamente os bovinos

O estresse térmico acontece quando o animal enfrenta dificuldades para manter a temperatura corporal dentro de uma faixa adequada. O calor excessivo provoca alterações fisiológicas e comportamentais que reduzem o desempenho.

“O conforto térmico é o oposto do estresse térmico. Esse calor que sentimos também é sentido pelos animais”, explicou a pesquisadora.

Quando submetidos a temperaturas elevadas, os bovinos reduzem o pastejo e o consumo de alimento. Além disso, passam a gastar energia para controlar a própria temperatura.

“Em uma condição de estresse térmico, os animais param de pastejar, param de comer e gastam muita energia para tentar manter a temperatura corporal em equilíbrio”, afirmou.

Essa energia deixa de ser utilizada para produzir carne, leite ou manter as funções reprodutivas.

Reprodução também pode ser prejudicada

O calor extremo não interfere apenas na alimentação. O estresse térmico pode reduzir a fertilidade e comprometer os índices reprodutivos do rebanho.

“Quando o animal para de comer, a produção é prejudicada e as fêmeas também podem deixar de entrar no cio”, explicou Ana Karina.

As consequências aparecem na redução do ganho de peso, da produção de leite, das taxas de prenhez e do retorno econômico da propriedade.

“Isso tem um impacto muito grande nos sistemas de produção animal”, ressaltou.

Rondônia combina calor e umidade

A localização de Rondônia próxima à Linha do Equador faz com que o estado enfrente altas temperaturas praticamente durante todo o ano.

No período chuvoso, o calor se combina com a elevada umidade. Na estiagem, a disponibilidade de água diminui e as temperaturas podem subir ainda mais.

“Rondônia possui um clima tropical. Temos um período quente e muito úmido, durante as chuvas, e outro em que chove menos, mas continua quente e pode ficar ainda mais quente”, explicou.

Durante a entrevista, foi citada uma sensação térmica de aproximadamente 46 graus em Porto Velho. Enquanto as pessoas procuram ambientes climatizados, muitos bovinos permanecem expostos diretamente ao sol.

“Você imagina o quanto os animais a pleno sol estão sofrendo”, alertou a pesquisadora.

Sistemas integrados equilibram o ambiente

Uma das estratégias apresentadas é a integração lavoura-pecuária-floresta. O sistema combina produção agrícola, pastagem, animais e árvores em uma mesma área, de forma planejada.

“A ideia dos sistemas integrados é promover um ambiente mais equilibrado”, afirmou Ana Karina.

A introdução do componente arbóreo ajuda a proteger o solo, melhorar a ciclagem de nutrientes e modificar o microclima.

“Quando introduzimos árvores nas áreas de pastagem, conseguimos proteger o solo e melhorar a ciclagem de nutrientes”, explicou.

As árvores também diminuem o impacto direto das chuvas e contribuem para reduzir a erosão.

“A copa ajuda quando chove muito, evitando a erosão e aumentando a eficiência no uso dos recursos hídricos”, acrescentou.

Sombra melhora conforto dos animais

Para os bovinos, um dos benefícios mais visíveis é a presença de sombra.

A árvore reduz a incidência direta da radiação solar e cria um ambiente mais favorável para o descanso, o pastejo e a ruminação.

“A árvore não fornece apenas sombra. Ela muda o microclima para o animal e protege contra o calor extremo”, destacou.

A melhora no conforto térmico pode favorecer o consumo de alimento e reduzir a energia gasta para dissipar calor.

A arborização, porém, precisa ser planejada para não causar sombreamento excessivo ou competição com as forrageiras.

Produtores começam a arborizar pastagens

Ana Karina observou mudanças na paisagem rural de Rondônia. Segundo ela, no passado era comum encontrar áreas de pastagem praticamente sem árvores, especialmente na região de Porto Velho.

“Quando cheguei aqui, a gente andava e não via árvores nos pastos”, recordou.

Em algumas regiões do interior, como Ouro Preto do Oeste e municípios próximos, a presença de pastagens arborizadas já era maior.

Atualmente, a pesquisadora percebe que os produtores da capital também começam a demonstrar preocupação com o conforto dos animais.

“Agora já estou vendo o produtor plantar árvores, mesmo que seja na beirada das cercas”, relatou.

Escolha das árvores exige planejamento

Nem toda árvore é adequada para ser implantada em uma pastagem. O produtor deve analisar porte, formato da copa, crescimento, sistema radicular, adaptação ao solo e interação com os animais.

“Quando se planeja colocar árvores no sistema de pastagem, isso precisa ser muito bem estudado”, alertou Ana Karina.

A Embrapa possui uma publicação que apresenta 51 espécies arbóreas nativas da Amazônia, avaliadas em pastagens do Acre e de Rondônia.

“São árvores que recomendamos especificamente para arborizar pastagens”, explicou.

O material ajuda o produtor a escolher espécies com características compatíveis com o sistema de produção.

Leguminosas podem contribuir com nitrogênio

Algumas árvores leguminosas conseguem fixar o nitrogênio presente na atmosfera. Esse processo pode contribuir para a fertilidade do solo e reduzir a necessidade de adubação nitrogenada.

“As árvores leguminosas têm a capacidade de fixar o nitrogênio do ar, e o nitrogênio é um dos nutrientes mais caros no sistema de produção”, explicou.

A incorporação dessas espécies precisa considerar as condições da propriedade e os objetivos do produtor.

“Teoricamente, ao utilizar uma árvore com essa capacidade, é possível diminuir a necessidade de adubação nitrogenada do pasto”, acrescentou.

A melhoria da fertilidade também pode aumentar a vida útil da pastagem.

Solo saudável sustenta a produção

Além do conforto térmico, os sistemas integrados contribuem para a saúde do solo. A presença de diferentes plantas amplia a ciclagem de nutrientes, a cobertura da superfície e o aproveitamento da água.

“A ideia é equilibrar o sistema para termos um solo mais saudável, um capim mais nutritivo e árvores protegendo os animais”, resumiu.

Quando o solo mantém suas propriedades produtivas por mais tempo, o pecuarista pode reduzir a frequência das reformas de pastagem.

“Melhorando a nutrição do solo e do pasto, também podemos diminuir a necessidade de reforma”, explicou.

Sustentabilidade também é econômica

Ana Karina destacou que sustentabilidade não significa apenas conservação ambiental. Um sistema sustentável precisa permanecer produtivo e economicamente viável ao longo do tempo.

“Quando falamos em sustentabilidade, falamos de sistemas de produção que precisam se manter ao longo do tempo”, afirmou.

Se a propriedade utiliza um modelo que degrada rapidamente o solo, serão necessárias novas intervenções, elevando os custos.

“Se o sistema não foi planejado para se sustentar, chegará um momento em que será necessária uma reforma ou intervenção. Isso exige investimento”, alertou.

Por isso, planejamento e acesso à informação são fundamentais.

Lavoura ajuda na recuperação das pastagens

A integração com culturas agrícolas pode reduzir os custos da recuperação de uma área degradada.

Ao plantar milho, soja ou outra cultura, o produtor corrige o solo, aplica fertilizantes e obtém uma renda adicional. Depois da colheita, a área pode ser utilizada para a formação de uma nova pastagem.

“É possível fazer a reforma do pasto consorciada com a lavoura. A cultura ajuda a recuperar a fertilidade do solo”, explicou Ana Karina.

A receita obtida com os grãos pode ajudar a pagar parte dos investimentos.

“Milho e soja trazem uma renda extra que pode diluir o custo da recuperação da fertilidade”, acrescentou.

Na sequência, o produtor pode implantar o componente arbóreo e transformar a área em um sistema integrado mais completo.

Sistemas mais eficientes são mais complexos

A pesquisadora reconheceu que a integração exige mais conhecimento do que um sistema baseado apenas em pastagem.

“Para alcançar a sustentabilidade, os sistemas ficam mais complexos. É necessário buscar informação constantemente”, afirmou.

O produtor precisa planejar o espaçamento das árvores, a orientação das linhas, o manejo do pasto, a entrada dos animais e a rotação das culturas.

Também deve considerar os objetivos econômicos de cada componente e o tempo necessário para alcançar retorno.

Sucessão familiar favorece inovação

A participação dos jovens foi apontada como um caminho para incorporar novas tecnologias nas propriedades.

Ana Karina defendeu que filhos e netos tenham espaço para estudar, apresentar ideias e aplicar conhecimentos no campo.

“É de extrema importância que os mais velhos deem oportunidade para os filhos e netos buscarem informações e levarem esse conhecimento para a propriedade”, afirmou.

Segundo ela, o conflito entre gerações pode dificultar mudanças.

“Às vezes, os mais velhos perguntam por que precisam mudar, porque sempre fizeram daquela forma”, comentou.

Entretanto, a pecuária atual exige planejamento mais detalhado.

“Hoje não dá mais para fazer mais do mesmo. O mundo está mais complexo e mais difícil”, alertou.

Produção deve considerar solo, planta e animal

A pesquisadora explicou que a propriedade precisa ser analisada como um sistema, no qual os diferentes elementos estão conectados.

“Tem que pensar no pasto, no animal, nas árvores e, às vezes, fazer rotação com uma cultura para recuperar a fertilidade”, afirmou.

Para Ana Karina, o solo está na base de todas as atividades.

“Hoje se fala muito em saúde do solo porque o solo é a base de tudo”, destacou.

Sem solo protegido e fértil, a propriedade perde capacidade produtiva e exige investimentos crescentes para manter os resultados.

Regularização ambiental interfere no acesso ao crédito

A relação entre produção e conservação também aparece no acesso às políticas de financiamento.

“Não há como ter uma propriedade que permaneça irregular do ponto de vista ambiental”, afirmou.

Uma área embargada pode impedir o produtor de conseguir crédito, reformar o pasto ou comprar animais.

“Quando a propriedade sofre embargo, o produtor não consegue financiamento. Sem financiamento, não consegue reformar uma pastagem ou comprar um animal”, explicou.

Dessa forma, a regularização ambiental também representa uma condição econômica para a continuidade da produção.

Pesquisa testa tecnologias antes de chegar ao campo

Ana Karina ressaltou que uma das funções da pesquisa é assumir os riscos da experimentação. Os pesquisadores testam tecnologias, identificam falhas e aperfeiçoam métodos antes de recomendá-los.

“Nós, pesquisadores, podemos errar, porque quando propomos uma nova tecnologia estamos sujeitos ao erro. Quem não pode errar é o produtor”, declarou.

A afirmação resume a importância dos experimentos conduzidos em campos de pesquisa e propriedades parceiras.

“Deixe que o pesquisador erre e que o produtor aprenda com os nossos erros e também com os nossos acertos”, acrescentou.

Depois das avaliações, a tecnologia pode ser entregue de maneira mais segura.

“A importância da pesquisa é buscar, testar e entregar uma tecnologia da qual o produtor possa se beneficiar”, explicou.

Informação para enfrentar extremos climáticos

O livro lançado durante a AGROTEC apresenta conceitos, metodologias e alternativas para reduzir as perdas provocadas pelas mudanças climáticas.

“A ideia é esclarecer o que está envolvido quando falamos de mudanças climáticas, quais perdas podemos ter e como podemos reverter ou reduzir esses impactos”, explicou Ana Karina.

A publicação tem importância especial para a Amazônia, que já enfrenta calor intenso e mudanças no comportamento das chuvas.

“Nós já temos informação necessária para mitigar os efeitos adversos, principalmente aqui na região amazônica, onde historicamente sofremos muito com o estresse por calor”, afirmou.

Segundo ela, a tendência é de maior frequência de temperaturas extremas.

“A perspectiva é que o calor e os eventos extremos sejam cada vez mais frequentes”, alertou.

Conhecimento aplicado à pecuária do futuro

A participação de Ana Karina Salman no RuralCast mostrou que adaptação climática, bem-estar animal e produtividade não são temas separados.

A arborização das pastagens pode oferecer sombra, melhorar o solo e proteger os recursos hídricos. A integração com lavouras pode financiar a recuperação de áreas degradadas, enquanto o planejamento ambiental facilita o acesso ao crédito.

Para que essas tecnologias funcionem, o produtor precisa buscar orientação, escolher espécies adequadas e compreender a propriedade como um sistema.

“A ideia do livro é trazer informações para combater ou, pelo menos, evitar os impactos negativos das mudanças climáticas”, concluiu a pesquisadora.


Assista à entrevista completa no RuralCast, pelo canal Olá Rondônia no YouTube:


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