O mercado global de cacau enfrenta uma nova e expressiva valorização, com os preços da commodity na bolsa de Nova York registrando uma alta superior a 80% nos últimos seis meses. O cenário atual, que remete à crise observada na safra 2023/24 — quando a tonelada da amêndoa atingiu o patamar recorde de US$ 12,5 mil —, acende um alerta para a indústria de chocolate e para o mercado físico.
Atualmente, as cotações oscilam em torno de US$ 5,5 mil por tonelada, um avanço significativo frente aos US$ 3 mil registrados em abril. Segundo analistas do Goldman Sachs, a principal força motriz por trás dessa escalada é o fenômeno climático El Niño, que tem gerado instabilidade nas regiões produtoras.
Riscos no mercado físico
Em um relatório recente, o Goldman Sachs destacou que o mercado físico pode estar em uma posição ainda mais vulnerável do que há dois anos. Os analistas Lina Thomas, Sam Darbyshire e Daan Struyven apontam que os estoques globais estão em níveis baixos, o que reduz a capacidade do setor de absorver eventuais quebras de safra. A destruição da demanda, que já ocorreu em ciclos anteriores, deixa pouca margem de manobra para o mercado.
A produção de cacau é altamente concentrada na faixa equatorial, com o oeste da África — incluindo países como a Costa do Marfim — respondendo por 65% da oferta mundial. Nessa região, o El Niño tem provocado oscilações extremas, alternando períodos de chuvas excessivas com secas severas. Relatos de produtores indicam uma baixa taxa de sobrevivência das vagens e um desenvolvimento deficitário dos frutos.
Além da instabilidade climática, a umidade excessiva tem favorecido a propagação de doenças, como a chamada "doença do broto inchado", que compromete a saúde das árvores e tem impactado a produção em Gana.
Perspectivas de liquidez
Apesar da pressão sobre a oferta, o Goldman Sachs avalia que os investidores do mercado futuro estão mais preparados financeiramente do que no ciclo anterior. A disparada de 2023/24 foi agravada por uma quebra de liquidez que amplificou a volatilidade, levando os preços a patamares extremos. Naquele momento, o aumento das exigências de margem pelas bolsas dos EUA e do Reino Unido elevou o custo de participação, reduzindo a liquidez disponível.
A expectativa dos analistas é que, desta vez, o mercado esteja mais atento às salvaguardas de gestão de risco. Embora o cenário de escassez física aponte para a continuidade da tendência de alta nos preços, a probabilidade de uma crise de liquidez com a mesma magnitude da anterior é considerada menor. A projeção é de que o mercado siga pressionado, mas com uma dinâmica de volatilidade potencialmente mais controlada do que no pico da crise precedente.