Contabilidade do futuro: universidade busca aproximar formação acadêmica das novas exigências do mercado
A profissão contábil vive um período de transformações impulsionado pela reforma tributária, pelo avanço das tecnologias digitais e pela crescente necessidade de profissionais capazes de interpretar informações e contribuir para decisões estratégicas nas empresas.
Diante desse cenário, a Universidade Federal de Rondônia (UNIR), campus de Cacoal, desenvolve estudos para modernizar o curso de Ciências Contábeis, uma das graduações mais tradicionais da instituição.
As mudanças foram detalhadas durante uma entrevista especial do RuralCast, podcast do Grupo Amazun, realizada durante a segunda edição do Agro&Cont 2026, evento dedicado à gestão, à contabilidade e ao agronegócio.
A conversa foi conduzida pelo professor Charles Carminati e teve como convidado o professor Dr. Éverton Gugliotti Coelho, coordenador do curso de Ciências Contábeis da UNIR em Cacoal.
Ao longo do episódio, o docente apresentou a trajetória da graduação, explicou como a universidade está se preparando para as novas exigências profissionais e revelou propostas que poderão transformar a experiência dos estudantes nos próximos anos.
Curso de Ciências Contábeis da UNIR possui mais de 35 anos de história
Um dos primeiros temas abordados foi a trajetória do curso de Ciências Contábeis no campus de Cacoal.
Segundo o professor Éverton, a primeira turma iniciou suas atividades em 1989, com conclusão em 1993.
Desde então, a graduação atravessou diferentes transformações econômicas, tecnológicas e legislativas, acompanhando a evolução da profissão contábil no Brasil.
Ao refletir sobre esse período, o coordenador destacou que cada geração de estudantes precisou se preparar para uma realidade profissional diferente.
A chegada da reforma tributária representa mais um desses momentos de adaptação.
O professor explicou que a formação universitária precisa acompanhar permanentemente as exigências do mercado, garantindo que os estudantes desenvolvam competências compatíveis com a realidade que encontrarão após a graduação.
"Acho que o grande ponto é o mercado", destacou o coordenador ao comentar a necessidade de atualização dos cursos.
Para ele, o desafio não está apenas em transmitir conhecimentos tradicionais, mas em preparar profissionais para situações que exigem interpretação, planejamento e capacidade de adaptação.
Reforma tributária exige transformação na formação dos contadores
Um dos assuntos centrais do episódio foi a preparação dos futuros contadores para a reforma tributária brasileira.
Durante a entrevista, Éverton explicou que a universidade está trabalhando na atualização da estrutura curricular do curso, considerando as novas Diretrizes Curriculares Nacionais de Ciências Contábeis, publicadas em 2024.
O objetivo é adequar a formação acadêmica às exigências profissionais relacionadas à tributação, à gestão empresarial e às novas tecnologias.
Segundo o professor, o currículo precisa oferecer uma formação progressiva, começando pelo conhecimento jurídico e empresarial e avançando até as aplicações práticas da contabilidade tributária.
Nesse percurso, os estudantes entram em contato com conteúdos relacionados à legislação comercial e societária, aos regimes tributários e às obrigações das empresas.
"A gente precisa começar, por exemplo, [...] com uma parte um pouco mais teórica sobre a legislação comercial e societária", explicou o coordenador.
O professor destacou que disciplinas como Contabilidade Tributária precisam incorporar as mudanças relacionadas à CBS e ao IBS, além de abordar a transição entre os modelos de tributação.
A reforma tributária foi apresentada como um desafio que ultrapassa o cálculo de impostos e exige planejamento por parte das empresas.
Nesse cenário, o contador passa a assumir uma função cada vez mais estratégica, ajudando empresários a compreender custos, obrigações fiscais e decisões relacionadas ao enquadramento tributário.
Nova estrutura curricular poderá ampliar planejamento tributário e previdenciário
O coordenador explicou que a graduação possui aproximadamente 40 disciplinas, distribuídas ao longo de quatro anos.
O último Projeto Pedagógico do Curso (PPC) mencionado na entrevista foi elaborado em 2022.
Com a publicação das novas diretrizes nacionais em 2024, a equipe acadêmica iniciou discussões sobre a atualização dos conteúdos e a organização das disciplinas.
Entre os assuntos que devem receber maior atenção está o planejamento tributário e previdenciário.
"Um dos aspectos que [...] são relevantes é, por exemplo, questões voltadas ao planejamento tributário e previdenciário", ressaltou Éverton.
A proposta é fortalecer a capacidade dos estudantes de analisar diferentes situações empresariais, avaliar alternativas tributárias e compreender as consequências financeiras das decisões tomadas.
Segundo o professor, a reformulação envolve discussões entre docentes, análise dos conteúdos programáticos e adequação das disciplinas às competências profissionais desejadas.
A expectativa apresentada durante a entrevista era concluir esse processo entre o final de 2026 e meados de 2027.
O prazo foi mencionado como previsão de trabalho, e não como confirmação de implantação definitiva.
Inteligência de dados e Business Intelligence entram no debate sobre a nova formação
Outro destaque da entrevista foi a importância da tecnologia na formação dos profissionais de contabilidade.
Éverton afirmou que a imagem tradicional do contador, associada exclusivamente à escrituração e à apuração de impostos, já não representa todas as possibilidades da profissão.
O contador moderno precisa compreender informações financeiras, trabalhar com sistemas digitais e utilizar dados para orientar decisões.
"A gente precisa pensar além dos números", afirmou.
Nesse contexto, o coordenador explicou que a proposta de atualização curricular contempla conteúdos relacionados ao Business Intelligence (BI).
O conceito envolve a utilização de dados, métodos de análise e ferramentas tecnológicas para produzir informações relevantes à gestão.
Segundo o professor, a formação em BI pode aproveitar conhecimentos desenvolvidos em disciplinas como Matemática, Estatística e Métodos Quantitativos.
Esses conteúdos oferecem fundamentos para análises de correlação, regressão, séries temporais e interpretação de informações empresariais.
Ao combinar essas competências com ferramentas digitais, o estudante poderá desenvolver uma visão mais analítica dos negócios.
O professor também destacou a importância de preparar os próprios docentes para essa realidade.
"Hoje a gente precisa já ter no nosso corpo docente professores da área de tecnologia", observou.
A declaração demonstra que a modernização do ensino não depende apenas da inclusão de novas disciplinas, mas também da qualificação permanente dos profissionais responsáveis pela formação universitária.
Softwares e novas soluções digitais transformam a rotina contábil
A entrevista também abordou como as ferramentas tecnológicas vêm modificando a rotina de empresas e escritórios contábeis.
Éverton citou a evolução dos sistemas que facilitam procedimentos administrativos, fiscais e financeiros.
Atividades que anteriormente exigiam processos mais demorados passaram a contar com softwares especializados e aplicações digitais.
A emissão de documentos fiscais foi mencionada como exemplo de uma atividade que ganhou agilidade com a tecnologia.
Segundo o coordenador, essa transformação também cria oportunidades para profissionais interessados no desenvolvimento de soluções digitais voltadas à contabilidade.
O surgimento de startups, ferramentas de automação e plataformas de gestão amplia as possibilidades de atuação dos contadores.
A discussão evidencia uma mudança importante: dominar os procedimentos tradicionais continua sendo necessário, mas compreender as ferramentas digitais passa a representar uma competência adicional para o exercício profissional.
Laboratório de Práticas Contábeis permite que estudantes simulem a abertura de empresas
Um dos pontos mais interessantes apresentados durante o RuralCast foi o funcionamento do Laboratório de Práticas Contábeis da UNIR.
O professor explicou que a universidade desenvolveu uma metodologia para aproximar os estudantes da realidade empresarial sem depender exclusivamente de estágios realizados fora da instituição.
"A gente resolveu trazer empresas para cá, para dentro da universidade", relatou.
A proposta permite que os acadêmicos trabalhem com situações simuladas de funcionamento empresarial.
O processo começa no quinto período da graduação, quando os estudantes são incentivados a idealizar um negócio.
Eles precisam definir a atividade econômica, planejar a estrutura da empresa, identificar equipamentos, estimar a necessidade de funcionários e calcular os recursos financeiros necessários ao funcionamento.
O trabalho também envolve o planejamento do capital inicial e a análise das necessidades de capital de giro.
A partir dessas informações, os alunos realizam uma simulação da constituição empresarial, utilizando como referência os procedimentos administrativos de abertura de empresas.
O professor explicou que a atividade aproxima o conhecimento teórico das etapas que um empreendedor precisa enfrentar para formalizar um negócio.
Aluno assume os papéis de empresário e contador durante a formação
A metodologia dos laboratórios possui uma característica que foi destacada pelo coordenador.
Durante as atividades, o estudante assume diferentes responsabilidades dentro da empresa simulada.
Em determinados momentos, precisa pensar como empreendedor. Em outros, atua como profissional responsável pelos registros contábeis.
"O aluno, ao mesmo tempo, ele é o empresário e ao mesmo tempo ele é um contador", explicou Éverton.
Na prática, essa alternância permite compreender tanto as necessidades do empresário quanto as responsabilidades técnicas do contador.
Após a fase inicial de criação da empresa, as atividades avançam para os laboratórios seguintes, nos quais são utilizados sistemas contábeis para registrar operações comerciais.
Os estudantes simulam emissão de notas fiscais, compras, vendas e lançamentos necessários à escrituração.
Na etapa posterior, o trabalho é direcionado à interpretação dos resultados, à análise financeira e à tomada de decisões.
De acordo com o coordenador, o conjunto dessas atividades se desenvolve ao longo de aproximadamente um ano e meio.
A metodologia busca fazer com que o estudante conclua a graduação com uma compreensão prática de diferentes etapas do funcionamento empresarial.
Formação prática busca corrigir limitações de experiências tradicionais de estágio
Durante a entrevista, Éverton explicou que a proposta de laboratório também surgiu da identificação de dificuldades enfrentadas por estudantes em experiências tradicionais de estágio.
Segundo ele, nem todos os acadêmicos conseguem realizar atividades diretamente relacionadas à contabilidade durante o período de formação.
Alguns trabalham em cooperativas de crédito, estabelecimentos comerciais ou outros segmentos econômicos, desenvolvendo funções que nem sempre permitem contato com todos os procedimentos contábeis.
Diante dessa realidade, o laboratório proporciona uma experiência organizada, na qual os estudantes participam de diferentes etapas de uma empresa simulada.
A metodologia oferece a oportunidade de compreender a relação entre decisões administrativas, operações comerciais, registros contábeis e resultados financeiros.
O professor ressaltou que o objetivo é garantir uma experiência prática coerente com as competências exigidas pela profissão.
UNIR estuda modelo com atividades presenciais e ensino a distância
Outro anúncio relevante da entrevista foi a proposta de flexibilização da estrutura do curso de Ciências Contábeis.
Éverton explicou que a equipe acadêmica está estudando a possibilidade de organizar parte das atividades em formato de educação a distância (EaD), mantendo também momentos presenciais.
"A gente está modernizando o curso", afirmou.
A proposta apresentada envolve uma organização mais dinâmica das atividades acadêmicas, com aulas entre segunda e quinta-feira e destinação das sextas-feiras para projetos de pesquisa e extensão.
Segundo o coordenador, o objetivo é ampliar as possibilidades de participação dos estudantes e integrar diferentes dimensões da formação universitária.
A proposta também considera as características dos acadêmicos que já estão inseridos no mercado de trabalho.
O modelo, entretanto, foi apresentado como parte do planejamento de reformulação, dependendo das etapas acadêmicas e institucionais necessárias à sua implementação.
Agronegócio ganha relevância na formação contábil em Rondônia
A relação entre Ciências Contábeis e agronegócio também foi destacada na entrevista.
Para o professor, a universidade precisa considerar as características econômicas da região ao organizar a formação profissional.
Em Rondônia, a presença do setor agropecuário cria demandas específicas de gestão, tributação, planejamento financeiro e análise de custos.
Essas características reforçam a importância de conteúdos relacionados à contabilidade aplicada ao agronegócio.
O coordenador explicou que a reformulação curricular também considera a possibilidade de ampliar disciplinas ligadas à realidade produtiva regional.
A participação da universidade no Agro&Cont 2026 foi apresentada como uma oportunidade de integração entre profissionais, pesquisadores, empresários e estudantes.
Realizado em parceria com instituições ligadas à contabilidade e ao agronegócio, o evento contribui para aproximar a formação acadêmica das transformações vivenciadas pelo setor produtivo.
Conexão com o PPGAgro amplia possibilidades de pesquisa e pós-graduação
Outro diferencial apresentado foi a possibilidade de continuidade da formação acadêmica na própria universidade.
O professor destacou a conexão entre a graduação em Ciências Contábeis e o Programa de Pós-Graduação em Gestão de Agronegócios e Sustentabilidade (PPGAgro), sediado no campus de Cacoal.
A aproximação entre os cursos cria oportunidades para que estudantes tenham contato com projetos científicos e desenvolvam interesse pela pesquisa.
Além da formação para o mercado, a universidade também atua na produção de conhecimentos que podem contribuir para solucionar problemas econômicos, sociais e ambientais.
Essa integração permite relacionar o ensino universitário às necessidades de desenvolvimento da região.
Formação contábil abre oportunidades em diferentes áreas profissionais
Na etapa final da entrevista, Éverton ressaltou a diversidade de possibilidades profissionais oferecidas pela graduação em Ciências Contábeis.
Segundo ele, a formação permite desenvolver competências importantes tanto para quem deseja atuar em escritórios contábeis quanto para interessados na administração pública, empreendedorismo e gestão empresarial.
A graduação reúne conhecimentos de contabilidade, administração, direito, legislação e análise financeira.
Essa diversidade amplia as possibilidades de atuação em diferentes segmentos econômicos.
O professor também destacou que a entrada na universidade representa uma oportunidade de transformação pessoal e profissional.
"Entrar dentro de uma universidade. É transformador", afirmou.
A mensagem foi direcionada especialmente aos estudantes que pretendem ingressar no ensino superior e aos profissionais que buscam novas oportunidades de qualificação.
O desafio de formar contadores para um mercado que não para de mudar
A entrevista com o professor Dr. Éverton Gugliotti Coelho demonstrou que a formação contábil atravessa uma fase de mudanças importantes.
A reforma tributária, o crescimento das ferramentas digitais e a demanda por informações estratégicas exigem atualização constante das instituições de ensino.
Ao apresentar a reformulação curricular, os laboratórios de práticas empresariais e as propostas de integração entre tecnologia, pesquisa e extensão, a UNIR evidencia o esforço de aproximar a graduação das necessidades do mercado.
O episódio também reforça uma questão central: a formação do contador do futuro não depende apenas de conhecer normas e calcular tributos, mas de compreender negócios, interpretar dados e participar das decisões que influenciam o desenvolvimento econômico.
A reflexão que fica é: as universidades e os futuros profissionais estão preparados para uma contabilidade cada vez mais tecnológica, analítica e estratégica?
A entrevista integra a cobertura especial do RuralCast durante o Agro&Cont 2026, com conteúdos divulgados pelo Grupo Amazun e pelo canal Olá Rondônia, no YouTube.